domingo, 23 de junho de 2013

A GRALHA /O PRIMO JACÓ/E EU


No escaldante sertão  baiano a abundancia  de pássaros canoros era incontável. Uma  cantoria  sem fim. E nesse ambiente  harmônico  moravam minha família e a família  do primo Jacó. Em  minha  família  éramos  uns quatro ou  cinco,  enquanto que,do lado  da  dele  eram  apenas três membros.Juntos  formávamos  um  bando de oito meninotes arteiros que,na  flor da meninice passávamos  o dia  enfurnados no oco  das matas atrás  de caçar passarinhos,armando arapuca e comendo frutas silvestres.
Nosso  instrumento  de caça mais  primitivo não podia ser.Usávamos  o bodoque,com um bornal cheio  de bolotas  de argila que  era nossa munição.Enquanto  nossos  pais se embolavam-se na  terra  seca ,revirando-a,na esperança de que a noite  a chuva viesse para enfim  semear os grãos .
Como  a  vida  era  difícil  naquelas paragens,nós,os  rebentos,passávamos  a maior parte do tempo espalhando  arapucas pela  matas,na esperança  de pegarmos juritis,jacus,pombas....
A concorrência  entre  nós  era acirrada,quem  conseguisse  um feito  daqueles estava por cima da carne seca.
Por conta  dessa  rivalidade,uma  vez aconteceu  um  trágico  episódio envolvendo  o primo Jacó ou o Có,como nós o chamávamos.
Có,  era  o mais  velho e também  o mais entrão...Inconveniente,devido  sua resmungação que,uma vez  que começava,não  havia  santo  que o fizesse parar.
Tentando nos passar  a perna,do  nada,Có,arrumou  uma  discussão sem medida,querendo  se afastar de nós,já  que não  sabíamos  onde era o severo.Onde o passarinhos  estavam  acostumados  a  comer.A partir  daí ficamos sem graça,já que,nem  curruíla  nós estávamos  pegando,enquanto o primo exibia aquelas cambadas de rolinhas e juritis.
Então eu disse:
-Diacho... Vou  descobrir  de onde vem essa fartura.Então,passei a vigiá-lo.
Numa  oportunidade  vi  o primão saindo  arisco,desconfiado,andando por um  trieirinho. Enquanto  eu  o  seguia de  dentro  da capoeira,tropeçando  em galhadas  de juá merim.
Não  demorou e chegamos no  local   onde  ele armava  sua arapuca. Có,se  empolgou  quando  viu  que a arapuca  estava desarmada e,dentro dela,um passarinho  manchado de branco e preto,que depois  de preparado,mal  dava pra tampar o broca  do  dente  do  vivente  de tão  pequeno  que era. Empolgado com  a  presa,não  resisti e me denunciei, dizendo:
-Que pássaro lindo, Có!Que pássaro é esse, hein?
-É passarinho branco  e preto. O que você  está  fazendo aqui?Eu  te chamei?
-Não  chamou não,mas nós não  cassamos juntos?
De repente o primo disse:
-Esse passarinho é uma  gralha.Segura  aqui  enquanto  eu armo  a arapuca  de novo.
E  eu  o segurei  com  toda  força  pra  ele não  escapar.
Dali a pouco me  distrai  com  a  beleza  do pássaro,e  sem  querer,o  aproximei  da  orelha do Có,que  estava  dando  os últimos  retoques  na  armadilha.Num relance o passarinho arregalou  aqueles  olhos de fogo e  cravou  o bico  na orelha  do primo que berrava,dizendo:
-Tira   esse bicho  de mim,  antes  que ele arranca  minha orelha fora!
Com medo  do primo,soltei  o passarinho  e  sai  correndo,com  o Có me perseguindo com  a  gralha  pendurada na  orelha,berrando:
-Tira  esse  bicho  de mim.
E,eu,assustado me embrenhei  na mata, que nem  olhei  pra trás.Fui  embora...



Autor;Francisco Lisboa

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