No escaldante sertão baiano a abundancia de pássaros canoros era incontável. Uma cantoria
sem fim. E nesse ambiente harmônico
moravam minha família e a
família do primo Jacó. Em minha
família éramos uns quatro ou
cinco, enquanto que,do lado da
dele eram apenas três membros.Juntos formávamos um
bando de oito meninotes arteiros que,na
flor da meninice passávamos o dia enfurnados no oco das matas atrás de caçar passarinhos,armando arapuca e
comendo frutas silvestres.
Nosso
instrumento de caça mais primitivo não podia ser.Usávamos o bodoque,com um bornal cheio de bolotas
de argila que era nossa
munição.Enquanto nossos pais se embolavam-se na terra
seca ,revirando-a,na esperança de que a noite a chuva viesse para enfim semear os grãos .
Como
a vida era difícil
naquelas paragens,nós,os rebentos,passávamos a maior parte do tempo espalhando arapucas pela
matas,na esperança de pegarmos
juritis,jacus,pombas....
A concorrência entre
nós era acirrada,quem conseguisse
um feito daqueles estava por cima
da carne seca.
Por conta dessa rivalidade,uma vez aconteceu um
trágico episódio envolvendo o primo Jacó ou o Có,como nós o chamávamos.
Có,
era o mais velho e também o mais entrão...Inconveniente,devido sua resmungação que,uma vez que começava,não havia
santo que o fizesse parar.
Tentando nos passar a perna,do
nada,Có,arrumou uma discussão sem medida,querendo se afastar de nós,já que não
sabíamos onde era o severo.Onde o
passarinhos estavam acostumados
a comer.A partir daí ficamos sem graça,já que,nem curruíla
nós estávamos pegando,enquanto o
primo exibia aquelas cambadas de rolinhas e juritis.
Então eu disse:
-Diacho... Vou descobrir
de onde vem essa fartura.Então,passei a vigiá-lo.
Numa
oportunidade vi o primão saindo arisco,desconfiado,andando por um trieirinho. Enquanto eu
o seguia de dentro
da capoeira,tropeçando em
galhadas de juá merim.
Não
demorou e chegamos no local onde
ele armava sua arapuca. Có,se empolgou
quando viu que a arapuca
estava desarmada e,dentro dela,um passarinho manchado de branco e preto,que depois de preparado,mal dava pra tampar o broca do
dente do vivente
de tão pequeno que era. Empolgado com a
presa,não resisti e me denunciei, dizendo:
-Que pássaro lindo, Có!Que pássaro é esse,
hein?
-É passarinho branco e preto. O que você está
fazendo aqui?Eu te chamei?
-Não
chamou não,mas nós não cassamos
juntos?
De repente o primo disse:
-Esse passarinho é uma gralha.Segura
aqui enquanto eu armo
a arapuca de novo.
E
eu o segurei com
toda força pra
ele não escapar.
Dali a pouco me distrai
com a beleza
do pássaro,e sem querer,o
aproximei da orelha do Có,que estava
dando os últimos retoques
na armadilha.Num relance o
passarinho arregalou aqueles olhos de fogo e
cravou o bico na orelha
do primo que berrava,dizendo:
-Tira esse bicho
de mim, antes que ele arranca minha orelha fora!
Com medo do primo,soltei o passarinho
e sai correndo,com
o Có me perseguindo com a gralha
pendurada na orelha,berrando:
-Tira
esse bicho de mim.
E,eu,assustado me embrenhei na mata, que nem olhei
pra trás.Fui embora...
Autor;Francisco Lisboa
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